Dose sem fonte: por que a IA clínica deve dizer “a fonte não informa”
Por Dr. Carlos Eduardo Miranda Bruzzi Felipe, médico e fundador do Douto · CRM/MG 105.721 · Publicado em 27 de outubro de 2026 · Atualizado em 27 de outubro de 2026 · 6 min de leitura
Uma IA clínica deve dizer “a fonte não informa” quando a bula ou o protocolo não trazem o dado, em vez de preencher a lacuna com um número plausível. Na nossa revisão interna de 58 cartões de dose, em 48 nenhuma das fontes consultadas trazia o limite diário em mg. E um estudo de 2026 com seis modelos de linguagem mostrou doses que variaram até entre repetições da mesma pergunta.
Em 30 segundos
- O dado que mais falta: o limite diário em mg. Na revisão interna do Douto, ele faltou nas fontes em 48 de 58 cartões de dose.
- O risco do número de memória: em um teste de dosagem com seis modelos, a concordância média com a literatura foi de 63% (28% a 94%), e a mesma pergunta repetida gerou doses diferentes.
- O que o Douto faz: mostra a fonte da dose, diz o que a fonte não informa e, quando há outra fonte para o dado, mostra a dele separadamente.
O que significa “a fonte não informa”?
Significa que o documento consultado, por exemplo uma bula ou um protocolo, não traz aquele dado. Não significa que o dado não exista no mundo. Dizer isso separa o que está sustentado do que ainda precisa de outra fonte, e é a diferença entre uma resposta conferível e uma resposta apenas confiante.
Com que frequência a fonte não informa o limite diário?
Eu não esperava o tamanho do problema. Ao revisar 58 cartões de dose do Douto em outubro de 2026, o limite diário em mg não constava em nenhuma das fontes consultadas em 48 deles. É uma revisão interna, com as fontes que o Douto usa, e não um levantamento sobre toda a literatura. Mas mostra o ponto: o dado que o prescritor mais quer conferir é justamente o que muitas fontes calam.
Uma IA que completa esse espaço com um número de memória parece mais útil e é mais perigosa. Prefiro uma que responda: “dose, via e intervalo conforme a fonte; o limite diário não está informado nela”.
O que acontece quando a IA completa a dose de cabeça?
O estudo de Hambrick e colegas, de 2026, consultou seis modelos de linguagem (ChatGPT, Claude, Gemini, Copilot, OpenEvidence e Perplexity) com três vinhetas de dosagem de cefepima e meropeném em lesão renal aguda com diálise contínua. As doses variaram muito: concordância média com a literatura de 63%, com faixa de 28% a 94%. Quando um modelo foi consultado três vezes com a mesma pergunta, a dose de manutenção diária recomendada variou de 0 a 1.000%.
Dois outros achados interessam a quem projeta IA clínica: o OpenEvidence citou fontes relevantes em todas as respostas, enquanto outros modelos usaram fontes de modo irregular ou as inventaram; e somente um modelo reconheceu consistentemente a própria incerteza. A conclusão dos autores: os modelos servem para gerar hipóteses e recuperar literatura, mas não devem ser usados isoladamente para dose em pacientes graves com disfunção renal.
O estudo trata de um cenário específico (dois antibióticos, lesão renal aguda, diálise contínua). Ele não diz que toda dose de toda IA varia assim. Diz que, onde o dado é difícil, a IA pode errar com confiança.
Citar a fonte basta?
Não basta: precisa ser a fonte que diz o que a resposta diz. A crítica de Bergsbaken e colegas, de 2026, descreve exemplos de imprecisão e de erros de sumarização de fonte em perguntas de farmacoterapia. Por isso a fonte precisa estar ao lado da resposta, para o médico abrir, e por isso a resposta de dose do Douto é montada a partir de dados cadastrados com a fonte, e não resumida livremente.
O que fazer quando uma fonte não traz o dado?
Em medicina é comum fonte parcial: o protocolo traz a indicação, a bula traz a apresentação, outra sociedade traz o ajuste. Somar fontes é legítimo quando cada dado vem com a sua própria fonte. No Douto, o dado complementar aparece com a fonte dele ao lado da linha.
Separamos dois estados que parecem iguais e não são. “A fonte não informa: limite diário” significa que verificamos e a fonte não traz. “Ainda não conferido na fonte: limite diário” significa que ainda não terminamos de verificar. Para o leitor, os dois dizem a mesma coisa importante: não há número sustentado aqui, não use de memória.
Como é uma resposta de dose honesta?
O formato abaixo é ilustrativo, com os valores omitidos de propósito, porque o ponto é a estrutura, não o medicamento.
- O que vem sustentado
Medicamento, via, apresentação, dose e intervalo, cada um com a fonte citada e o selo do nível de curadoria.
- O que falta, dito com todas as letras
“A fonte não informa: limite diário em mg.” A linha aparece, vazia de número, para você saber que a lacuna existe.
- O que não aparece
Um número de limite diário “completado” sem fonte. Se não há fonte para a dose, o Douto diz que está buscando fonte atual, em vez de responder.
Por que isso importa também para o CFM?
A Resolução CFM nº 2.454/2026 trata como direito do médico ter acesso a informações claras sobre as limitações, os riscos e o grau de evidência dos sistemas de IA que usa (art. 3º, II), e como dever exercer julgamento crítico sobre o que a IA fornece (art. 4º, II). Uma ferramenta que admite o que não sabe facilita as duas coisas: o limite está na tela, não escondido num número plausível. Veja o texto completo em IA na prática médica: o que o CFM exige.
Isso torna o Douto menos útil?
Às vezes, sim: haverá perguntas em que ele responde menos do que um chatbot confiante responderia. Eu aceito essa troca. Uma resposta incompleta e honesta custa uma consulta à bula; uma resposta completa e errada pode custar um evento adverso. O Douto também não cobre toda a medicina: onde não há fonte indexada, ele diz isso.
Perguntas frequentes
O que a IA deve fazer quando a bula não traz o limite diário?
Dizer que a fonte não informa e mostrar a fonte da dose, via e intervalo, sem inventar o teto. Se houver outra fonte para o dado, citá-la separadamente.
Por que tantas fontes não trazem o limite diário?
Na revisão interna do Douto de 58 cartões de dose, o limite diário faltou em 48. O motivo varia por documento; não generalizamos além das fontes que revisamos.
A IA erra dose com frequência?
Em um estudo de 2026 com seis modelos e doses de dois antibióticos na lesão renal aguda, a concordância média com a literatura foi de 63% e as doses variaram entre repetições. É um cenário específico, mas mostra o risco do número de memória.
Somar fontes é seguro?
É legítimo quando cada dado vem com a sua própria fonte e o leitor vê a origem de cada um. Misturar sem indicar a origem não é.
Qual a diferença entre “a fonte não informa” e “ainda não conferido”?
A primeira significa que verificamos e a fonte não traz o dado. A segunda, que ainda não terminamos de verificar. Em ambas, não há número sustentado e você não deve usar um de memória.
O Douto responde dose sem fonte?
Não. Sem fonte indexada para a dose, ele diz que está buscando fonte atual, em vez de responder de memória.
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Fontes
- [1] Hambrick HR et al. User Beware: Inaccuracy and Inconsistency of LLMs in Providing Precision Dosing Recommendations for Patients With Kidney Impairment. Pharmacotherapy, 2026 · DOI 10.1002/phar.70207
- [2] Bergsbaken JM et al. Prescribing Caution: A Critique of OpenEvidence to Answer Medication-Related Questions. J Am Coll Clin Pharm, 2026 · DOI 10.1002/jac5.70237
- [3] Resolução CFM nº 2.454/2026 · Art. 3º, II e art. 4º, II
O número de 48 em 58 vem de revisão interna do Douto, de outubro de 2026, sobre cartões de dose e as fontes usadas por ele. Os estudos foram lidos pelo resumo original. O autor é fundador do Douto. Douto não substitui a bula, o protocolo da instituição nem o julgamento clínico.
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