Situação clínica · adulto · fonte oficial

Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida: investigação, tratamento padrão, dapagliflozina e sacubitril valsartana

Conferido em 10 de outubro de 2026 · Ministério da Saúde e Conitec, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 10, de 13 de setembro de 2024

Como investigar a suspeita de IC com BNP e ecocardiograma (força e certeza graduadas), o tratamento padrão, os critérios para dapagliflozina e para trocar o IECA por sacubitril valsartana e quando encaminhar, segundo o PCDT de 2024.

Vale para adulto com IC crônica e fração de ejeção reduzida compensado; a IC aguda ou descompensada está fora do protocolo. Este resumo não substitui o protocolo da sua instituição; cada trecho abaixo é do PCDT, conferido em código.

Em 30 segundos

  • Baixa ou moderada probabilidade de IC: BNP ou NT-proBNP como primeiro testeRecomendação forteCerteza moderada
  • Alta probabilidade de IC: não pedir BNP nem ecocardiograma só para diagnosticarRecomendação forteCerteza baixa
  • Base do tratamento: IECA (ou ARA II), betabloqueador e espironolactona nas maiores doses toleradas, mais diurético se houver congestão
  • Dapagliflozina para adultos com NYHA II a IV, fração de ejeção abaixo de 40% e sintomas
  • Sacubitril valsartana no lugar do IECA ou ARA II só com tratamento otimizado, menos de 75 anos, NYHA II, fração abaixo de 35% e BNP elevado; 36 horas depois da última dose de IECA
Como ler a força e a certeza

Força diz o quanto a recomendação é firme: forte (fazer), condicional (sugerida; a decisão depende do caso e do serviço) ou fraca. Certeza diz o quanto se confia nos estudos por trás dela: alta, moderada, baixa ou muito baixa.

As duas são independentes: uma recomendação pode ser forte mesmo com certeza moderada, e uma de certeza baixa continua valendo quando é a melhor opção disponível. Os rótulos são os que o próprio protocolo publica (método GRADE), sem conversão.

Para quem vale

  • Exclusões do protocolo
    Estão excluídos deste Protocolo pacientes com IC aguda ou com IC crônica descompensada ou com IC e fração de ejeção preservada ou levemente reduzida (> 40%).
  • Objetivo do tratamento
    O objetivo deste tratamento é o aumento da sobrevida, redução de hospitalização devido à IC e melhora dos sintomas

Investigação com baixa probabilidade clínica

  • BNP primeiro
    Recomendação 1.1: Recomendamos realizar BNP ou NT-proBNP como primeiro teste diagnóstico em pacientes com baixa probabilidade clínica de IC (qualidade de evidência moderada, recomendação forte)
  • Ecocardiograma de entrada
    Recomendação 1.2: Sugerimos não realizar ecocardiografia diagnóstica em pacientes com baixa probabilidade clínica de IC (qualidade de evidência moderada, recomendação fraca)
  • Ecocardiograma se BNP positivo
    Recomendação 1.3: Recomendamos solicitar ecocardiografia em pacientes com baixa probabilidade clínica de IC e BNP ou NT-proBNP positivo (qualidade de evidência moderada, recomendação forte)

Investigação com moderada probabilidade clínica

Recomendação forteCerteza moderada
  • BNP primeiro
    Recomendação 2.1: Recomendamos realizar BNP ou NT-proBNP como primeiro teste diagnóstico em pacientes com moderada probabilidade clínica de IC (qualidade de evidência moderada, recomendação forte)
  • Sem BNP disponível
    Recomendação 2.2: Recomendamos realizar ecocardiografia diagnóstica em pacientes com moderada probabilidade clínica de IC, na indisponibilidade de realizar testagem com BNP ou NT-proBNP (qualidade de evidência moderada, recomendação forte)
  • Ecocardiograma se BNP positivo
    Recomendação 2.3: Recomendamos solicitar ecocardiografia em pacientes com moderada probabilidade clínica de IC e BNP ou NT-proBNP positivo (qualidade de evidência moderada, recomendação forte)

Investigação com alta probabilidade clínica

Recomendação forteCerteza baixa
  • Sem BNP
    Recomendação 3.1: Recomendamos não realizar BNP ou NT-proBNP como teste diagnóstico em pacientes com alta probabilidade clínica de IC (qualidade de evidência baixa, recomendação forte)
  • Sem ecocardiograma de rotina
    Recomendação 3.2: Recomendamos não realizar ecocardiografia como teste diagnóstico em pacientes com alta probabilidade clínica de IC (qualidade de evidência baixa, recomendação forte)

Tratamento padrão: IECA, betabloqueador, espironolactona e diurético

  • IECA: quem recebe
    São indicados para tratamento de pacientes com IC com fração de ejeção reduzida sintomáticos ou assintomáticos, excluídos casos de intolerância, contraindicação e em gestantes (por risco de malformações fetais).
  • IECA: como titular
    Sugere-se iniciar o tratamento com IECA em doses baixas, que devem ser aumentadas gradualmente até as maiores doses toleradas dentro do alvo terapêutico.
  • IECA com ARA II
    Não se recomenda associar ARA II e IECA em pacientes com IC devido ao maior risco de piora de função renal
  • Betabloqueadores
    Os betabloqueadores são o bisoprolol, succinato de metoprolol e carvedilol, sem evidência de superioridade entre eles.
  • Betabloqueador: como iniciar
    O tratamento deve ser iniciado em pacientes compensados (não congestos), em dose baixa e gradualmente aumentada até as maiores doses toleradas ou a dose-alvo.
  • Propranolol e atenolol
    Inexiste certeza do benefício de outros betabloqueadores, como propranolol e atenolol
  • Espironolactona
    O uso de antagonistas de aldosterona é indicado para pacientes com IC com fração de ejeção reduzida e sintomáticos (classe II-IV da NYHA), associados ao tratamento com IECA/ARA II e betabloqueador nas maiores doses toleradas.
  • Potássio
    Após o início do tratamento, é importante a dosagem periódica de potássio sérico (por exemplo, após 1ª semana, 1º mês de tratamento e, depois, a cada 1 a 4 meses)
  • Diuréticos
    Os diuréticos são eficazes no tratamento da congestão. Inexistem evidências para o seu uso em pacientes sem sintoma ou sinal de congestão.

Dapagliflozina

  • Efeito
    A administração de dapagliflozina na IC em pacientes sintomáticos com fração de ejeção reduzida demonstrou redução de hospitalização por descompensação da síndrome, da mortalidade cardiovascular e da mortalidade total
  • Quem recebe
    Paciente adulto, com classe funcional NYHA II a IV, fração de ejeção reduzida (< 40%) e que apresente sintomas
  • Apresentação
    Dapagliflozina: comprimidos de 10 mg

Sacubitril valsartana no lugar do IECA ou ARA II

  • Quem recebe
    Paciente adulto, com idade inferior a 75 anos, classe funcional NYHA II, fração de ejeção reduzida (< 35%), níveis de BNP > 150 pg/mL ou NT-ProBNP > 600 pg/mL, que esteja em tratamento otimizado e apresente sintomas.
  • Dose inicial
    A dose inicial recomendada é de 50 mg duas vezes ao dia.
  • Dose inicial maior
    Em pacientes com uso prévio de altas doses de IECA ou ARA II e pressão arterial preservada (acima de 100 mmHg), a dose inicial recomendada é de 100 mg duas vezes ao dia.
  • Titulação
    As doses devem ser progressivamente aumentadas a cada 2 a 4 semanas, acompanhadas de monitoramento da função renal e eletrólitos e hipotensão, até a dose alvo de 200 mg duas vezes ao dia.
  • Troca do IECA
    Em pacientes com uso prévio de IECA deve-se iniciar o tratamento com sacubitril valsartana sódica hidratada pelo menos 36 horas após a última dose de IECA
  • Nunca junto
    Esse medicamento composto não deve ser utilizado concomitantemente com IECA ou com outro ARA II.
  • Com dapagliflozina
    Pacientes que cumprem simultaneamente critérios para uso de dapagliflozina e sacubitril valsartana e persistem sintomáticos podem ter o tratamento otimizado para uso simultâneo dos dois medicamentos.

Hidralazina com nitrato, digoxina e ivabradina

  • Hidralazina com nitrato
    Essa associação tem sido preconizada particularmente em pacientes intolerantes a IECA e ARA II por hipercalemia e perda de função renal
  • Digoxina
    O benefício do uso da digoxina se restringe a pacientes que permanecem sintomáticos apesar do tratamento estar otimizado
  • Ivabradina
    A ivabradina não está incorporada ao SUS

Medidas não medicamentosas

  • Exercício
    A prática de exercício aeróbico em pacientes com IC é segura, tem inúmeros benefícios como a redução da mortalidade e hospitalizações
  • Sódio
    Sugere-se uma dieta normossódica (aproximadamente 7 g de sal/dia)
  • Vacina
    A vacinação anual contra influenza é recomendada aos pacientes com diagnóstico de IC

Quando encaminhar

  • Serviço especializado
    A abordagem do paciente em um serviço especializado, deve ser realizada em: (a) pacientes com doença descompensada agudamente; (b) pacientes com classe funcional NYHA III-IV apesar do tratamento clínico otimizado

Evidência por trás das condutas

RecomendaçãoTexto do protocoloForça e certezaRótulo original
Recomendação 1.1 Recomendamos realizar BNP ou NT-proBNP como primeiro teste diagnóstico em pacientes com baixa probabilidade clínica de IC Recomendação forteCerteza moderada qualidade de evidência moderada, recomendação forte
Recomendação 1.2 Sugerimos não realizar ecocardiografia diagnóstica em pacientes com baixa probabilidade clínica de IC Recomendação fracaCerteza moderada qualidade de evidência moderada, recomendação fraca
Recomendação 1.3 Recomendamos solicitar ecocardiografia em pacientes com baixa probabilidade clínica de IC e BNP ou NT-proBNP positivo Recomendação forteCerteza moderada qualidade de evidência moderada, recomendação forte
Recomendação 2.1 Recomendamos realizar BNP ou NT-proBNP como primeiro teste diagnóstico em pacientes com moderada probabilidade clínica de IC Recomendação forteCerteza moderada qualidade de evidência moderada, recomendação forte
Recomendação 2.2 Recomendamos realizar ecocardiografia diagnóstica em pacientes com moderada probabilidade clínica de IC, na indisponibilidade de realizar testagem com BNP ou NT-proBNP Recomendação forteCerteza moderada qualidade de evidência moderada, recomendação forte
Recomendação 2.3 Recomendamos solicitar ecocardiografia em pacientes com moderada probabilidade clínica de IC e BNP ou NT-proBNP positivo Recomendação forteCerteza moderada qualidade de evidência moderada, recomendação forte
Recomendação 3.1 Recomendamos não realizar BNP ou NT-proBNP como teste diagnóstico em pacientes com alta probabilidade clínica de IC Recomendação forteCerteza baixa qualidade de evidência baixa, recomendação forte
Recomendação 3.2 Recomendamos não realizar ecocardiografia como teste diagnóstico em pacientes com alta probabilidade clínica de IC Recomendação forteCerteza baixa qualidade de evidência baixa, recomendação forte

Só as recomendações de investigação diagnóstica (BNP e ecocardiograma) vêm graduadas pelo GRADE no protocolo. A força e a certeza ficam no rótulo original; o tratamento padrão, a dapagliflozina e o sacubitril valsartana são orientações do protocolo, sem graduação publicada. Verificado em 10/10/2026: não há portaria federal mais recente para este PCDT; a incorporação da eplerenona em análise na Conitec não substitui o protocolo. Os esquemas de dose-alvo do Quadro 5 do protocolo estão em tabela e não foram transcritos aqui.

Veja também

Outras situações:

Doses dos medicamentos citados:

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Fonte

  1. [1] Ministério da Saúde e Conitec — PCDT da Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Reduzida (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 10/2024), no Relatório de Recomendação nº 808 da Conitec (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 10, de 13 de setembro de 2024) · Fonte governamental

Douto não substitui a bula, o protocolo da instituição nem o julgamento clínico. Informação de apoio para profissionais de saúde.